Sangre de Virgenes : resenha

<<este texto contém muitos spoilers!!>>

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Pense em um filme de vampiros da década de 1960. O que te lembra, a Hammer? Poderia até ser verdade, caso os vampiros não falassem espanhol… Estou falando de um pérola esquecida pelo tempo, Sangre de Virgenes.

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Produzido no ano de 1967, este filme é o primeiro filme com a temática vampiros produzido na Argentina, pelo menos até onde sei. Com elementos clássicos do cinema exploitation, com direito a um roteiro bagunçado, colagens de imagens sobre o filme, muito sangue e peitões, fica difícil de imaginar como conseguiu ser lançado sem ser destruído pela censura da época. No ano em questão, a Argentina vivia o período da ditadura do General Juan Carlos Onganía, em que até o uso minissaias era proibido, quem dirá peitos de fora… Talvez tenha-se conseguido sair do país ou ter sido engavetado… O ponto é que o filme ficou esquecido e recentemente foi resgatado pela distribuidora Mondo Macabro e lançado em um dvd, recheado de extras, que infelizmente, não lançou-o no Brasil. Para complicar ainda mais, o dvd é Região 1 apenas.

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Dirigido por Emilio Vieyra (conhecido por alguns como o Ed Wood argentino) conta a história de Gustavo e Ofélia, um casal de amantes que não pode se casar por conta dos pais de Ofélia. Eles, por sua vez, querem que ela case com seu primo Eduardo – obviamente por conveniência, argumentando que não conhecerem Gustavo pessoalmente, e este, mesmo a pedido de Ofélia, nega falar com os pais dela por “não poder”. Isso demonstra certa decepção nela que diz por fim: “Este é nosso adeus, Gustavo.”. E com um olhar sinistro, ele responde “Não poderá fugir de mim, nunca!”. As imagens que se seguem são a do casamento, onde uma visão de Gustavo no salão faz com que ela hesite em dizer sim e a primeira noite com Eduardo; esta é a marca do fim da longa introdução do filme, onde Gustavo surge, revelando agora, por meio de seus caninos, o seu grande segredo: ele é um vampiro. Um punhal é cravado na nuca de Eduardo e Ofélia desmaia, dando a Gustavo chance chupar seu sangue. Em uma cena subsequente, vemos Gustavo caminhando pelo cemitério e erguendo sua amada “morta-viva” do túmulo.

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Gustavo foi interpretado por Walter Kliche, ator uruguaio ainda vivo que se tornou muito conhecido posteriormente por seus papéis em novelas na tv chilena, e Ofélia foi interpretada pela voluptuosa Susana Beltrán, atriz argentina de filmes noir e musa exploitation de Emilio Vieyra.

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É estranhíssimo pensar no título do filme como “virgens” pois, pelo que parece, a única virgem do filme é Ofélia, como é visto nas cenas seguintes, onde somos apresentados a um grupo de amigos que viajam de férias por Bariloche, onde navegam, esquiam, namoram e dançam em boates que mais parecem casas de swing…

Ao dirigirem certa noite, acabam por ficarem sem gasolina, no meio do nada, onde só há a bendita casa da família Gutiérrez, família de Ofélia, e é o local onde decidem passar a noite por suspeitarem não haver ninguém.

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Já instalados, um dos rapazes do grupo, Raúl – interpretado pelo já falecido humorista Rolo Puentes, resolve explorar a casa em busca de algo para comer. E simplesmente do nada, o antigo mordomo da família surge, caminhando com um abajur (?) na mão, com a cara mais fantasmagórica do mundo, com direito a muito pó branco! É neste momento que um dos diálogos mais hilários e nonsenses do filme ocorre:

Raúl: Pensávamos que não tivesse ninguém na casa.
Mordomo: Não há ninguém.
Raúl: Digo, pensávamos que estivesse desabitada.
Mordomo: E está desabitada.
Raúl: Tomei a liberdade de pegar algo para comer.

Logo depois, o mordomo sinistro não responde nada mais e segue para a sala de jantar mostrando uma mesa já arrumada e farta. E o pior, tudo ocorre na maior naturalidade do mundo entre os viajantes! Quando todos vão jantar acham estranho haver sete taças de vinho, sendo que eles estão em seis. É aqui que outro momento hilário acontece, quando uma das garotas levanta, dizendo “É pra já”, e arremessa uma das taças numa pintura que tinha no local. (A pintura era uma fotografia de Ofélia, presente de casamento de Eduardo). E o pior dessa farra toda, é que eles estão em sete, jantando! Eu mesmo contei!

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Um tempo depois, quando todos já se acomodaram para dormir, sendo que Raúl é o único de pé “vistoriando” a casa, surge a imponente figura do vampiro Gustavo. Ele chupa o sangue de Laura, namorada de Raúl, sem nem mesmo ela acordar.  Simultaneamente, Ofélia aparece para Raúl e mesmo o enxergando como Eduardo a principio, pede que a salve do “horror de viver morta” e o seduz. Aqui temos uma das partes mais explotation do filme quando o sexo entre eles, que mesmo simulado, deve ter causado algum desagrado na época.

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Ao acordar, Raúl não vê mais a mulher, e inclusive todas as mulheres que estavam com o grupo desapareceram. Os homens decidem então ir a delegacia, pois já conseguiram gasolina. Viajando pela estrada, um carro surge na frente deles e quem está dirigindo é o mordomo sinistro. Mesmo perseguindo o carro, não o alcançam, mas anotam a placa e descobrem através do comissário – que é o próprio diretor fazendo uma ponta, que a placa não é de nenhum carro do local e que a casa estava desabitada há muito tempo. Aliás, todos resolveram fazer uma ponta. Até o produtor Orestes Trucco tira uma casquinha.

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Em uma noite, Laura reaparece no quarto de hotel de Raúl, extremamente branca e com frio, e Raúl, por sua vez, chama o médico do hotel. Mas adivinha quem atende o telefone? O mordono fantasma, claro! O médico mandado por ele é nada mais nada menos que o vampiro, que retira sangue dela com uma seringa e dá um vidro de remédio falso (possivelmente homeopático, haha) recomendando dar a ela a cada duas horas! Isso mesmo, duas horas! Sem exame nem nada, apenas retirando sangue, e pegando o primeiro remédio que tem no bolso, ele recomenda que ela tome 12 remédios por dia! É inacreditável!

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Quando Laura começa a delirar, Raúl chama a recepção para pedir outra vez o médico, e desta vez descobre realmente, que não há médico coisíssima nenuma no hotel e que tudo não passou de uma farsa bizarra. Neste momento ele liga para Tito, o irmão de Laura, – interpretado por Ricardo Bauleo, que vive em Buenos Aires, para pegar o primeiro avião para Bariloche e ficar ajudando ele e com sua irmã. O curioso também é notar que os vampiros, que tiveram anos e anos para discutir a relação, resolvem discutir justamente no meio do filme, quando se encontram na mesma clareira onde costumavam namorar, lá no início do filme. É muito engraçado notar que eles não conseguem se beijar normalmente por conta dos caninos vagabundos que estão usando:

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Eles também nem se importam com o sol, nada os afeta.

Mais a frente, a segunda mulher do grupo reaparece desmaiada e com marcas de canino no pescoço, as mesmas marcas notadas pouco antes por Raúl em Laura, que passa a crer na possibilidade de serem vampiros e mantém uma discussão extremamente cômica com Tito que é cético quanto a isso respondendo: “Vampiros no século XX?”

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Antes de acabar o filme, Ofélia também tem tempo de seduzir mais um, Tito, só para não perder o hábito, mas no meio do ato, eis que aparece Eduardo e dá o punhal que o matou a ela, para vingar-se do vampiro e acabar de vez com a maldição. E é o que ela faz, e ao abrir o caixão de Gustavo, enfia o punhal no peito dele e posteriormente em seu próprio peito, perecendo ali mesmo, como uma cena que parece escrita por um Shakespeare sanguinário. Cena bem legal esta.

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Ah sim, esqueci de citar também o linchamento aleatório de um homem em frente a delegacia, no meio do filme, que foi suspeito de ser o culpado pelos crimes e foi furiosamente atacado pelo povão enlouquecido, haha.

Por fim, vemos o caixão entrando em uma fornalha de crematório, para selar de vez a maldição. O que não sabiam era que o mordomo sinistro estaria escondido e libertaria o seu amo, que obviamente, não morreu com a punhalada e sai voando do forno junto de sua amada em sua forma animal. Forma animal essa que parece ser um morcego, como em todas as histórias de vampiros, mas que bizarramente aparece em imagens estranhas e vermelhas de gaivotas…isso mesmo GAIVOTAS! Talvez seja o único vampiro do mundo que se transforma em uma gaivota. Estas imagens estranhas de um céu avermelhado com uma ou duas gaivotas voando aparecem constantemente durante todo o filme, e pessoalmente só notei a intenção do diretor com elas ao final. Talvez pela falta de orçamento ou de imagens de morcegos verdadeiros voando disponíveis nos arquivos, Emilio Vieyra deve ter se visto obrigado a enxertar estas imagens bisonhas de qualquer jeito.

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Um fato curioso a se notar também são os créditos. Não existe nenhum Rolo Puentes nem Ricardo Bauleo; o motivo é simples: quando um filme saía da Argentina (ou de outros países) para o mercado exterior, ele era dublado (ou legendado, simplesmente) para alcançar esse mercado. Por conta disso, diversas vezes os nomes dos atores também eram americanizados, muitas vezes para mascarar a nacionalidade dos atores. Assim, Ricardo Bauleo virou Richard Baulex, e Rolo Puentes virou Raul Monroy.

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Enfim, Sangre de Virgenes é um filme cujo orçamento claramente foi apertadíssimo, tendo o diretor necessitado de diversas manobras criativas (dependendo do ângulo de visão) para realizar. O apelo sexual com a constante presença de seios fartos, e o sangue que jorra em diversos momentos do filme, o caracterizam como um exploitation purinho, purinho. Mesmo não sendo uma obra prima, tem seus momentos de bonita fotografia, iluminação com estilo e uma trilha sonora de qualidade, composta por Victor Buchino. Mesmo tendo um roteiro fuleiro, atuações canastronas e não ter mais a capacidade de assustar ninguém, é um filme que merece ser conferido por todo cinéfilo insano, pois compõe uma parte interessante e desconhecida da história do cinema latino americano.

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Fontes que ajudaram na pesquisa:

http://aprivadacult.blogspot.com/
http://www.youtube.com
http://www.imdb.com
http://www.wikipedia.org
http://cinediondo.blogspot.com.br/search?q=sangre+de+virgenes
http://www.rarovhs.com.ar/2012/05/nota-argentinos-por-el-mundo.html?zx=6226ea75daccacbe
http://fannyriffel.blogspot.com.br/2010/07/sangre-de-virgenes.html
http://phoenixmovies-shadow.blogspot.com.br
http://www.mondomacabrodvd.com/start.html

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